Thursday, March 29, 2007

A vida desmonta sem aviso. A cada ar trocado, um sonho para depois. Tem tempo ainda. Vazio. Entende? Basta uma música, um suspiro. Machuca um respiro. A promessa da vez seguinte - o tempo da gente era para ser inadiável. Sendo agora, regressivo. As vontades precisam de verdades. Temporárias, as causas são imprevisíveis.

Fechou o livro. Laura não sabia dizer o que entendera; estava convencida de que um dia leria tudo de novo.

Monday, March 26, 2007

Não tinha notado antes - a grande graça da vida, o motivo sagrado do dia a dia, não tem hora para acontecer. Abriu a porta do quarto, sem camisa; observou a criança perdida num ônibus chinês. A neve cobrindo o rosto, os tons pastéis, alguns contrastes de sombra escura. Encostou a janela, permaneceu investigando o sobe e desce da agulha trilhando as covas do vinil. Estava com preguiça de dançar. Andava cansado. Avançou a música, alcançou o trecho com colagens de guitarra e soul americano. Estalou os dedos, deitado - tinha saudade de muita coisa.

Thursday, March 22, 2007

- Perdão, sei, imagino, claro. É evidente. Sei que você pensará que lembro muito alguém que você conhece. Sei, sim. Que pareço de tal maneira... Poderia chegar a ser. Eu também, claro. Também terei a impressão de tê-la visto em alguma outra ocasião. De ter estado por perto tanto tempo. Talvez chegue até a admitir certa intimidade. Digo: a pensar que fomos íntimos algum dia. Que seus olhos, suas formas, o mamilo direito. Tudo. Ah, meu Deus, não leve a mal, mas diria até que sei seus sons de prazer, o sorriso de quando alguma coisa vai bem. Ah, de pensar que... Na rua, assim. Juraria uma familiaridade. Seus livros, suas músicas, os filmes que você destesta. Será? Você igual, não? Convencida de que adivinharia meu top 5. Minha cor predileta, o molho indiano que não uso jamais. O tipo de sofá, de lápis, de papel. Incrível, não? Posso ver quão incomodada você ficaria se dissesse a parte do corpo que não posso tocar... Ou o barulho sufocado de quando você espirra, sabe? Não você exatamente, mas a pessoa que tanto me faz lembrar. E eu, então? Quando você dissesse Durutti, completaria com Column, imaginando já ter vivido o mesmo episódio tempos atrás. Denunciaria minha fragilidade ao ouvir você repetindo: ya-sa-brás, e você nem imaginaria por quê. Se eu falasse de Lucía y el sexo, do receio de Ken Park, sabe? Não, claro que não. Você se parece - e só. Mas entendo, sim, sem dúvida. Entendo o medo de reconhecer numa pessoa aquilo que ela não é. De ter saudade do que foi, conformado. Que medo, hein? De pensar que poderíamos ter sido, que, de tão parecidos com o que fomos, ainda poderíamos estar sendo. Caramba. Imagine: consigo enxergar você dizendo: "fiquei acostumada a te querer, já não querendo mais. Mas é costume, sabe? Nem sei mais por que repito o corn flakes todas as manhãs". Aí, lembrarei que, quando você disse, quero dizer, quando a pessoa que tanto se parece contigo disse, fiquei desmontado, porque era verdade - e era recíproco. A gente tinha virado o corn flakes um do outro. Deus meu, até essa aliança no seu dedo, acredita? Lembra muito a que ela usava. Fico até sem palavra. Aqui, ó, compare com a minha. É ou não é? O mesmo modelo, Mari...

Wednesday, March 21, 2007


"Ease you're feet off in the sea My darling it's the place to be Take your shoes off curl your toes I will frame this moment in time Troubles come and troubles go The trouble that we used to know Will stay with us 'til we get old Will stay with us 'til somebody decides to go Decides to go Soberly, without regret, I make another sandwich And I fill my face, I know that things have got to you But what can I do? Suddenly, without a warning On a pale blue morning You decide your time is wearing thin A conscious choice to let yourself go dangling Hovering It's an emergency There's no more "wait and see" Maybe if I shut my eyes The trouble will be split between us People come and people go You're scouring everybody's face For some small flicker of the truth To what it is that you are going through, my boy I left you dry The signs were clear that you were not going anywhere Anywhere Save for a falling down Save for a falling down Anywhere Anywhere Save for a falling down Everything's going wrong Later on, as I walked home The plough was showing, and orion I could see the house where you lived I could see the house where you gave All your time and sanity to people Then you waited for the people to acknowledge you They spoke in turn But their eyes would pass over you Over you Who's seeing you at all? Who's seeing You at all?"

Monday, March 19, 2007

- Hostia, el otro día, el otro día, siempre el día que no viene, ni vendrá. Madre mía, basta con los futuros, mentiras conjugadas a favor de la esperanza. No lo ves? Por Dios, mañana o después, pasado mañana, aún por ser. Jesús. Ya, chaval, qué quieres que te diga? Que sí, claro, por qué no? Un día, no? Y nunca este día, entiendes? No, habrá manera. Espero que haya... Tal vez. Un sitio, tierra del hoy. Un espejo sin vueltas - la ausencia de un recuerdo. Nada. Solamente el "soy" - eterno, desplegado. Un camino sin origen o destino. Un cielo sin tierra. El alma sin cuerpo. Una pintura de Macke... O mejor, mejor, mucho mejor: un texto de Schwob - nada: el desespero de Martín y Alejandra. Ya, ya, me vas a hablar de la muerte, sin infierno. Lo haces muy bien; un día puede que me lo hagas entender. Pero queda aún: la prisa, la ansiedad por el sentido de eternidad en las cosas finitas - el amor, las amistades, la sonrisa, Dios, los "playmobils", más Calvin y Haroldo. Lo sé, me lo llevo muy mal - pero lo llevo y no lo puedo olvidar. Qué hago si he aprendido a ser eterno con sólo dos minutos de felicidad?

Sunday, March 18, 2007

"Meu trabalho emerge do desejo de solidão. Sempre estive só; quanto mais me dava com as pessoas, mais só me sentia, mais afastado, embora ninguém me tenha afastado." (Kirchner, 1919)

Saturday, March 17, 2007


- No fundo, Víctor, você tem razão. Faremos das nossas vidas nossas possibilidades; quero dizer, faremos da vida o que nossas possibilidades permitirem. Não daremos conta do tanto que os sonhos arriscaram.
- Uma pena, não? Era tudo tão bonito. Deve ser essa a saudade que me assalta. São Paulo está mais feia.
- Sei como é. Berlim, onde o sonho pôde ser de novo, será linda até o primeiro pesadelo.
- Nisso - não posso negar - estamos de acordo. Mas tudo será muito novo; os amigos, adultos e envelhecidos, não terão tempo de decepcionar ninguém. Diferente, sabe? A mudança, o abandono. As derrotas, as vitórias. As renúncias já terão sido.
- E você? Estará do lado de quem?
- Eu? Ich heiße Víctor, não é isso? Um vencedor?
- É maravilhoso como um nome, só e apenas um nome, resolve as coisas. Dizendo "Víctor", você já diz quem é. Se põe um "Carreras", está escancarado.

Algumas palavras ficam cansadas na boca de quem não tem convicção. O céu laranja, a rua dura, o momento alto, o sentido baixo; as coisas respiram grande para convencer. Nádia pensava duas, três vezes, sem saber por quê. Onde estava tudo aquilo; haveria motivos? Na natureza, insistia, toda razão é re-la-ti-va. Preciso definir, em mim, o centro do meu universo. Quando existo para o casal de poodles do 62, às vezes não existem para mim. Existindo, claro, nesse exemplo mastigado. As crenças são esperanças, que tradição. Espero, preciso acreditar - alguma coisa virá. O crente disciplinado dispensa longa melodia- o que vem será divino, deixa estar. O passo seguinte é sempre acreditar - e só assim será. O circo do playmobil, fui rico no Banco Imobiliário, estou em Berlim num tema de Tiersen, coleciono dezenas de vidas imaginárias - o mundo nunca acaba, a fantasia é o lugar da redenção. Meu Deus é único e particular, mede os deuses de todos os outros. Vivo bem se viver de acordo com e na medida das, quantas coisas por acreditar. Vivo bem, pequena correção, se houver força suficiente para sustentar uma crença cujo complemento, de fato, não há.
IMG................. The joy of life, Delaunay.

Monday, March 12, 2007


Ada disse "sim", em seguida disse "não". Seria sempre assim: a busca de sentido numa vida acidental. Que incômodo era esse, persistente? Andava entendendo tantas coisas. Que o tempo é de cada um. Que a hora de sentar deita num outro lugar. Cansada, esperava o próximo poema, que não vinha. Até quando provaria aventuras? Haveria fim? Inconformada: o tempo dos outros não precisa de mim. Passara toda a tarde com um livro na mão. Kirchner e a solidão. Acho que serei assim.

Saturday, March 10, 2007

- Rá-tiiim - espirrei. E derrubei o copo: "boom".

Friday, March 09, 2007


- Não, amigo-estepe, não me aproximo nos momentos de conveniência. Imagine você. Confio em nossa afeição. Não, não. Não se engane. Se peço alguma coisa, se disfarço meus farrapos, se clamo por ajuda... Que é isso? Somos amigos, ou então? Nada disso. Minha vida anda torta, sei bem... Mas conto com você, não posso? Seus contos, a literatura que você tem. Se fomos, não podemos seguir sendo? Ah, rapaz, ando confuso, você sabe, não foi como planejei. Não, desculpe se... Mas, não, por favor, não entenda mal. Se precisei, se fiz, se usei, se aproveitei, foi porque, é claro, foi, lógico, porque confio, espero, aposto, você sabe bem. Perdão, juro mesmo, mas, não, não. Tantas as histórias, lembra? Como, hein?! As coisas são assim, acho. Quem entende? Têm boas lembranças aqui. Valeram muito, não? Já imaginou? Sempre desejo: que meus filhos façam amigos assim. Mas, oras, tantos os 'mases', os 'mais'. Aí vêm as viagens, as agendas, trabalhos e compromissos. As mulheres, os filhos. Nossa, rapaz, rápido mesmo. Nothing never waits, a música, está lembrado? Quanta vida velha; estamos enrugados agora, ave. É, mas também; será que é para tanto? Foi, foi bom, ainda bem. Tá ido, poxa. E o que virá? Vindo já, claro. Não, amigo-estepe, nossa amizade não foi rasteira. Se agora é, se hoje pode, se quando. Enfim, ninguém jamais adivinhará. Razão para quê? Acontece, pombas, tem jeito de evitar? Ah, rapaz, não, não, nada disso, falei já. É só o tempo; a vida, no caso de cada um. Mas respeito você, homem de Deus. Muito. Respeito os amigos que fomos. Somos? Ah, falei demais, acho. Não me leve a sério, não, tenho me dopado com esse excesso de palavras.
- Ei, fominha, tá com pressa? Hein? O que você ganhou com isso? Han, i-di-o-ta?
O homem espera, finge. Não deve ser com ele. O mendigo insiste, incomoda:
- Hein, fominha? Ei, você mesmo - o que você ganhou com isso?
Constrangido - o reproche indignado, o vagabundo de dignidade saqueada. Limpa a bunda com jornal, esfrega o saco a céu aberto - até goza para todo mundo ver. À noite, dorme sozinho, como todo mundo; mas dorme na rua, desacompanhado. Da janela do carro, o apressado transpira envergonhado.
- Fominha...
O ofendido disfarça, pensa em revidar. Ai, covardia; o homem de dentro tem vergonha das regras que aprendeu a jogar. Olha de novo, estuda a galhofa dos outros através do retrovisor. Nem todos são iguais. Não, pensa, não ganhei nada.
O vagabundo, maltrapilho, sai puxando a carroça, cheia de restos do mundo, sobre as costas peladas. Resmunga duas outras palavras, doendo, como todos os dias, com a barriga vazia.

Sunday, March 04, 2007

"Descobriu que a vida era um sonho febril e a realidade um mundo infundado de quimeras e alucinações, um lugar onde tudo o que se imaginava virava verdade. "
p. 161, P.A.

Thursday, March 01, 2007


- Rô, por favor, dê um pulo até aqui. Veja se consegue acertar o fecho - estou um pouco atrasada.
Do lado de lá da parede, longe do espelho onde Lídia media a própria satisfação, Rodrigo ficou quieto, desiludido até. Um dia, lembrou, fora ternura e sensualidade. Agora, Deus meu, era simples prova conjugal.
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