Wednesday, December 06, 2006


Júlia não disfarçava a atenção. No centro da pista, sozinho, em movimentos torcidos, borrados no excesso colorido da fumaça bagunçada, Víctor não dividia o mundo com ninguém. Quando o cabelo escorria para um lado, os dois pés, num calçado rasgado, apontavam para o Sudeste, num ritual de auto-negação. Será? Quero sair do corpo, correr no tempo da música, numa onda que não termina em mim. Ser música é ainda mais bonito que ser oceano. Meu Deus, posso ser assim fora daqui? Teve vontade de levantar. Sabia o refrão, lembrou. Se eu chegar perto? Costurado em timbres desencontrados, boneco de pano tendido em cordão que a gente não vê, Víctor dobrava o braço, em auto-afirmação. Olhasse para trás, traísse a música de três acordes e dois minutos e meio... Quem sabe? Uma vida de paixão. Escondido na própria fantasia, extasiado com o próprio sorriso, num ritmo de olhos fechados, foi o beijo que nunca seria. “Christine Norden”! – Júlia pensou, encorajada. Foi em direção, um passo para cá, uma esperança largada na ponta de lá. O amor existe assim, diferente, no silêncio fantasioso de cada um. Impossível, perde-se no confronto da própria condição, que é coincidir. Víctor andou para trás, tremeu a mão, contornou o ar, as formas de um desenho de criança. Bonito, o pop que tocava no fundo, tocando em mim, aqui dentro. Som alto, ar quente. Júlia mexeu a cintura, confundindo a dança de quem? Juntos? Talvez. Não esperou por uma segunda vez. Quando o refrão foi mais alto, e a noite mais confusa, chegou perto, respirou tão decidida que o olho abriu. Um frio. Víctor sentiu e duvidou. Tão linda, menina; o melhor que existe em mim depende de uma noite imaginada, quando balanço acordado.

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