Wednesday, December 13, 2006


Acordei cansado, preguiça de falar. Meses antes, passamos meses falando. Então, grande a vontade de dizer. Ontem, não. Quieto, paciente. Mudando. Na minha direção, no sentido do mundo, sem sentido. Em dúvida, que é isso, diferente na gente, prefere permanecer calado, depois de tanto por dizer. Ruído da solidão, a respiração dos que respiram sozinhos. Estou comigo, estando sem ninguém. Sim, houve. Palavras abertas, fonemas fechados, o sema encoberto. Não entendo bem, por bem que eu entenda. Cruzou, quis me atravessar olhando, pedindo alguma sílaba. Errante. Pouca explicação: cansado. Cansei, posso? Enquanto a vida vem acontecendo, caindo a cada instante, levanto acordado, quero chegar mais alto. Enquanto censuro uma palavra, ecôo nos túneis que não têm fim, finitos dentro de mim. Troco um dia de barulho por um minuto de atenção tímida; ando aguçado. Sem pressa de dobrar a língua. Sem motivo: não quis falar. Cansado. Acostumado, habituado até, a novidade é improvável. Sendo imprevisível. Foi diferente num outro dia. Com outra pessoa. Falei só para poder ouvir a voz; trilha-guia, enquadrou o movimento dos olhos, do cílio à pálpebra enrugada. Tive medo de tanto silêncio; aprendi a ouvir o medo dos outros. Levantei cansado e cansei por ter falado tão pouco. Estou mudando de andar, migrando mudo, vou encontrar lugar? O mundo me quer mudado, tranqüilo, com a freqüência do vento que sopra por aí. Não importa: tomei a primeira lição e, quando eu cair, grito um “ai”, com ou sem alguém para ouvir.
free web stats